Ouço ao fundo: “Chamem um Médico!”. “Meu Deus! Que tragédia”. “Isso só pode ser
coisa de gente ruim!”. Eis que retomo parcialmente à minha consciência e observo
meus dois companheiros, já pálidos, petrificados, próximos de meu corpo, como se
quisessem constatar se meu sofrimento já indicava minha agonia terminal.
Tento levantar-me, mas, sinto
algo nunca antes experimentado, como se meu corpo não respondesse aos meus
comandos, passo então a refletir; seria reflexo de alguma das substancias que de
costume usávamos em nossas aventuras diárias? Seria alguma reação nova causada
por uma contaminação do meio ambiente do qual compartilhávamos? Seria castigo
por algum pecado que cometemos? Confesso que essa reflexão tomou-me algum tempo,
tempo este suficiente para notar que já não havia mais pessoas em torno de meus
amigos e eu, nem mesmo eles que antes petrificados, no chão repousavam como se
almejassem desfrutar os sonhos que tiveram algum dia.
Abro meus olhos e encontro-me
num lugar muito iluminado, impecavelmente limpo, muito diferente do qual me
encontrava antes; as dores voltaram, estou rodeado de desconhecidos vestidos com
roupas que nunca tinha visto, mascarados, amparados de muitos instrumentos.
Alguns não me causam dor, já outros doem tanto que esqueço o que me acontecera,
e passo a atentar aos diversos tubos que me introduzem para realizar
procedimentos dolorosos, as injeções que me são aplicadas, nos termos que são
usados, e que minha falta de estudos não torna possível compreender. Passo a
pensar que o motivo das mascaras é para esconder a identidade desses que, de
minha situação, parecem se aproveitar.
Quando abri os olhos novamente,
sentia-me muito fraco, pude somente ouvir uma única explicação: “Isso foi
causado por veneno de rato!” “Durante os exames, encontramos vestígios de que a
contaminação se deu pelo veneno, uma pequena dose de soda foi encontrada, mas
não foi a causadora da situação. Os policiais investigaram a ponte onde eles se
abrigavam e encontraram algumas drogas, cigarros, pouquíssimo dinheiro, um pote
de sal, onde na verdade havia um pouco de soda, e o fator determinante; uma
sacolinha, encontrada no lixo, nela havia uma bandeja de carne com data de
validade já vencida e vestígios de veneno de rato, provavelmente utilizada para
abrigar o mesmo antes de ir para o lixo junto com a carne.”.
Neste instante, passei a
sentir novamente muita dor, mas, dessa vez, doía em meu coração, pois acabei
entendendo o porquê de meus amigos não se movimentarem; eles já estavam mortos.
E essa culpa era minha, pois eu havia achado a sacola com a carne, e fiquei tão
feliz que minha reação foi correr para dividir com meus amigos, mas não sabia
que, junto com ela, encontraria tudo o que fora ocorrido!
Vou agora aguardar, pois sinto
que, de alguma maneira, encontrarei meus queridos amigos, e então, juntos
novamente, poderemos desfrutar de tudo aquilo que um dia sonhamos juntos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário